A digitalização industrial ampliou significativamente a capacidade de acompanhar o que acontece nos sistemas produtivos. Sensores, controladores, equipamentos conectados, sistemas MES, ERP, IIoT e diferentes camadas de automação passaram a produzir continuamente informações sobre produção, disponibilidade, qualidade, consumo, manutenção, materiais e desempenho. Entretanto, à medida que essa infraestrutura amadurece, torna-se mais evidente uma distinção fundamental: uma fábrica capaz de gerar e transmitir dados não é necessariamente uma fábrica capaz de utilizá-los para tomar decisões melhores.
Durante anos, uma parcela significativa dos investimentos em transformação digital esteve concentrada na conectividade, aquisição de dados e digitalização de processos. Essas iniciativas continuam fundamentais, mas fornecem a infraestrutura para um desafio mais complexo: converter informações industriais em conhecimento capaz de apoiar efetivamente a tomada de decisão. Um estudo publicado em 2025 na Production Engineering identifica uma desconexão entre a coleta de dados e sua aplicação em casos de uso capazes de gerar valor. Os autores propõem uma abordagem “data-to-value”, na qual a aplicação pretendida e o valor esperado ajudam a determinar quais dados e tecnologias devem ser utilizados.
Essa evolução já se reflete nas prioridades da indústria. A 2025 Smart Manufacturing and Operations Survey, realizada com 600 executivos de grandes empresas de manufatura, identificou que 92% consideram smart manufacturing um dos principais fatores de competitividade para os próximos três anos. Entre os respondentes que já implementaram essas iniciativas, foram reportadas, em média, melhorias de 10% a 20% no output de produção, 7% a 20% na produtividade dos colaboradores e 10% a 15% em capacidade produtiva liberada. Esses números indicam que a discussão sobre digitalização começa a avançar da adoção tecnológica para a geração efetiva de resultados mensuráveis.
A questão, portanto, deixa de ser simplesmente quanto dado uma indústria consegue coletar e passa a envolver quais decisões precisam ser aprimoradas e quais informações são necessárias para sustentá-las. Em sistemas industriais, equipamentos, pessoas, materiais, estoques, manutenção, sequenciamento e capacidade estão interligados, fazendo com que uma alteração localizada possa afetar diferentes etapas do processo. É essa complexidade que diferencia visibilidade de capacidade decisória e exige que os dados avancem de uma função predominantemente descritiva para capacidades analíticas, preditivas e, progressivamente, prescritivas.
A conectividade é a infraestrutura, não o objetivo final
O primeiro requisito dessa evolução é a integração das informações geradas no ambiente industrial. Nesse contexto, sistemas MES desempenham um papel importante ao conectar dados relacionados à produção, equipamentos, recursos, qualidade e rastreabilidade aos demais sistemas da empresa, criando uma visão mais estruturada do sistema produtivo. Um estudo publicado na Computers in Industry em 2023 identificou MES/MOM como elementos importantes para a integração end-to-end em arquiteturas de Industry 4.0 e destacou a extração de dados de equipamentos legados, incluindo máquinas, controladores e sistemas mais antigos que não foram projetados para os atuais padrões de conectividade, como um dos desafios associados a esse processo.
Protocolos proprietários, interfaces desatualizadas e diferentes arquiteturas podem dificultar a integração desses ativos com sistemas mais recentes. Uma revisão sistemática publicada no Journal of Industrial Information Integration em 2024 reforça essa questão ao destacar interoperabilidade e padronização como componentes relevantes para integrar dados e processos em ambientes de smart manufacturing.
Mesmo com o avanço da Inteligência Artificial, essa infraestrutura continua recebendo investimentos significativos. Segundo a 2025 Smart Manufacturing and Operations Survey, 78% dos executivos pesquisados afirmaram destinar mais de 20% de seus budgets de melhoria a iniciativas de smart manufacturing, incluindo tecnologias relacionadas a analytics, sensores, automação e infraestrutura de dados. O levantamento também identificou que 88% esperavam manter ou ampliar esses investimentos no exercício seguinte, demonstrando a importância atribuída à construção de uma base tecnológica capaz de sustentar aplicações mais avançadas.
Por esse motivo, aumentar o número de sensores ou sistemas conectados não gera, por si só, maior inteligência. Dados fragmentados ou sem contexto podem aumentar a complexidade informacional em vez de melhorar a tomada de decisão. O MES contribui para consolidar e contextualizar essas informações, criando uma base mais consistente de visibilidade. O próximo passo é utilizar essa base para identificar padrões, antecipar comportamentos e avaliar alternativas antes da implementação.
Quando os dados deixam de explicar apenas o passado
A crescente disponibilidade de dados industriais criou condições para a expansão das aplicações de Machine Learning e Inteligência Artificial na manufatura. Uma revisão científica publicada em 2024 analisou 114 artigos de periódicos dedicados ao uso de Machine Learning em funções industriais, classificando as pesquisas de acordo com algoritmos, dados de entrada e saída, funções suportadas e domínios de aplicação. Apesar do avanço da área, o estudo também identifica uma fragmentação das aplicações, frequentemente direcionadas a problemas e objetivos específicos.
Uma revisão publicada na CIRP Annals em 2024 demonstra a amplitude que essas tecnologias já alcançaram. O estudo examina aplicações de Inteligência Artificial em planejamento de sistemas produtivos, modelagem de processos, otimização, controle de qualidade, manutenção e montagem, ao mesmo tempo em que identifica desafios relacionados à qualidade dos dados, interpretabilidade, transparência, integração entre conhecimento físico e métodos data-driven e confiabilidade dos resultados.
A contribuição dessas tecnologias está na capacidade de extrair novas informações dos dados disponíveis. Históricos de manutenção podem revelar padrões anteriores a falhas, informações de qualidade podem identificar relações entre parâmetros de processo e não conformidades, enquanto séries temporais e modelos preditivos podem antecipar comportamentos de equipamentos, demanda ou produção. Dessa forma, a análise deixa de responder apenas ao que aconteceu e começa a fornecer evidências sobre o que provavelmente acontecerá.
Entretanto, antecipar um evento e determinar como responder a ele são desafios distintos. Se um modelo prevê crescimento da demanda, por exemplo, ainda é necessário avaliar como essa demanda pode ser absorvida: ampliar recursos, modificar turnos, alterar o sequenciamento, redistribuir a produção ou investir em novos equipamentos. Responder a esse tipo de questão exige compreender não apenas a tendência prevista, mas também como diferentes alternativas podem afetar o comportamento do sistema.
Da previsão para a experimentação virtual
Digital Twins acrescentam uma nova dimensão à análise ao permitir avaliar como sistemas industriais podem responder a diferentes condições e alternativas. Em ambientes complexos, capacidade, variabilidade, disponibilidade, estoques, movimentações, mão de obra, sequenciamento e demanda interagem continuamente. Modelos virtuais permitem representar essas relações e testar cenários antes que cada alternativa precise ser implementada no ambiente real.
Entretanto, existem diferentes níveis de integração entre o ambiente físico e sua representação virtual. No Digital Model, não existe troca automatizada de dados com o sistema físico, e as atualizações são realizadas manualmente. No Digital Shadow, os dados fluem automaticamente do sistema físico para o modelo virtual, permitindo que ele acompanhe mudanças e condições do ambiente real. Já no Digital Twin, a integração é bidirecional: as informações fluem automaticamente entre os ambientes físico e virtual, permitindo uma interação mais ampla entre ambos. Essa classificação é utilizada na literatura de manufatura para diferenciar essas três formas de representação digital de acordo com seu nível de integração.
Independentemente do nível de integração, a capacidade de utilizar esses modelos para apoiar a tomada de decisão depende de sua confiabilidade. Dados, premissas, calibração, verificação e validação são fundamentais para garantir que os resultados representem adequadamente o comportamento do sistema analisado. O valor não está apenas na representação visual do ambiente industrial, mas na possibilidade de construir um ambiente virtual quantitativamente consistente, no qual alternativas possam ser comparadas, a capacidade possa ser avaliada, mudanças possam ser testadas e seus possíveis impactos compreendidos antes da implementação.
A decisão inteligente surge da combinação entre diferentes capacidades
A convergência entre conectividade, integração, Inteligência Artificial, Digital Twins e otimização começa a alterar a própria natureza do processo decisório. Diante de uma variação inesperada de demanda, por exemplo, dados podem identificar o desvio, algoritmos podem estimar sua evolução, um Digital Twin pode avaliar diferentes estratégias e métodos de otimização podem explorar combinações de recursos, sequenciamento e capacidade. O valor não está necessariamente em uma tecnologia isolada, mas na capacidade de combiná-las de acordo com o desafio específico que precisa ser analisado.
Um estudo publicado em 2025 em Results in Engineering apresenta um exemplo quantitativo dessa abordagem. Em uma aplicação na indústria siderúrgica, pesquisadores combinaram Digital Twin, redes neurais, Reinforcement Learning, Machine Learning e algoritmos metaheurísticos para ajustar estratégias diante de condições como variações no preço da eletricidade, degradação de componentes e crescimento da demanda. Na aplicação estudada, a metodologia alcançou redução de 5% no custo por tonelada produzida, redução de 5% nas emissões de CO₂ e melhoria de 30% no ajuste da produção à demanda.
Pesquisas mais recentes também apontam para uma integração crescente entre modelos e conhecimento humano. Em 2026, um estudo publicado no International Journal of Production Economics apresentou um Intelligent Digital Twin aplicado ao production scheduling, combinando Digital Twin e Machine Learning para gerar políticas de decisão e utilizando quatro Large Language Models para explicá-las em linguagem natural. A arquitetura permite ainda incorporar preferências dos especialistas às políticas propostas, aproximando capacidade computacional e conhecimento técnico.
A direção apontada por esses estudos não é necessariamente a substituição dos especialistas, mas a ampliação de sua capacidade de compreender alternativas, consequências e trade-offs. Algoritmos podem explorar um grande número de combinações, enquanto modelos virtuais permitem avaliar seus possíveis impactos antes da implementação. A decisão final permanece vinculada aos objetivos, restrições e prioridades do negócio, mas passa a ser sustentada por uma base quantitativa mais ampla.
Decidir melhor passa a ser o objetivo da digitalização
A maturidade digital de uma indústria não deveria ser avaliada apenas pelo número de equipamentos conectados, sensores instalados ou dashboards disponíveis. Uma empresa pode possuir milhares de variáveis em tempo real e ainda tomar decisões de capacidade com base em médias estáticas, realizar investimentos sem avaliar impactos sistêmicos ou acumular anos de históricos sem utilizá-los para antecipar falhas. A passagem da fábrica conectada para a decisão inteligente ocorre quando a infraestrutura digital começa efetivamente a modificar a forma como essas decisões são avaliadas.
Essa combinação também altera a lógica dos investimentos industriais. Digital Twins podem apoiar análises de expansão de capacidade, equipamentos, layouts e mudanças de processo antes de comprometer CAPEX. Na automação, a mesma lógica aparece no Virtual Commissioning, no qual modelos virtuais podem ser conectados aos sistemas de controle para validar lógica de PLC, comunicação, sequências e interações entre equipamentos antes do startup físico. Em ambos os casos, o princípio é semelhante: obter evidências sobre o comportamento esperado antes da implementação.
Historicamente, muitas informações importantes tornavam-se disponíveis somente depois que uma decisão já havia sido tomada: a capacidade efetivamente obtida após um investimento, problemas de automação identificados durante o commissioning ou o comportamento de uma linha de produção depois de uma alteração. A digitalização avançada busca deslocar parte desse conhecimento para antes da implementação, utilizando dados, modelos e inteligência para avaliar previamente alternativas e seus possíveis impactos.
Essa é uma das principais diferenças entre uma fábrica simplesmente conectada e uma fábrica orientada à decisão inteligente. O próximo estágio da transformação digital industrial não está necessariamente em produzir mais dados, mas em reduzir a distância entre dado e decisão. Quando conectividade, contexto, inteligência analítica, experimentação virtual, otimização e conhecimento humano atuam de maneira integrada, as organizações industriais ampliam sua capacidade de avaliar alternativas com antecedência e evidências quantitativas, reduzindo incertezas e sustentando escolhas mais consistentes para o futuro do sistema produtivo.
Da tecnologia à aplicação: resultados em grandes indústrias
A aplicação dessas tecnologias já faz parte de projetos desenvolvidos pela EYF Solutions para grandes indústrias, apoiando decisões relacionadas a capacidade, produtividade, logística, manutenção, automação e investimentos. Por meio da integração entre dados, Digital Models, Inteligência Artificial e otimização, esses estudos permitem avaliar cenários, quantificar impactos e comparar alternativas antes da implementação, com projetos que apresentam ROI médio de aproximadamente 40%. Quer entender como essa abordagem pode ser aplicada aos desafios da sua empresa? Fale com nossos especialistas.
Referências
Mayer, J. et al. A decision-making methodology for selecting digital twin applications in the product service phase considering value and effort. Production Engineering, 2025.
Bitencourt, J.; Wooley, A.; Harris, G. Verification and validation of digital twins: a systematic literature review for manufacturing applications. International Journal of Production Research, 2025.
Gao, R. X. et al. Artificial Intelligence in manufacturing: State of the art, perspectives, and future directions. CIRP Annals, 2024.
Machine learning-supported manufacturing: a review and directions for future research. 2024.
Schlemitz, A.; Mezhuyev, V. Approaches for data collection and process standardization in smart manufacturing: Systematic literature review. Journal of Industrial Information Integration, 2024.
Application of MES/MOM for Industry 4.0 supply chains: A cross-case analysis. Computers in Industry, 2023.
Keshvarinia, M.; MacKenzie, C. A.; Zhao, Z. A simulation-based digital twin model for data-driven decision optimization. Decision Analytics Journal, 2025.
A methodology leveraging digital twins to enhance the operational strategy of manufacturing plants in unexpected scenarios. Results in Engineering, 2025.
Genetti, S. et al. An intelligent Digital Twin based on machine learning for interpretable decision-making in manufacturing. International Journal of Production Economics, 2026.
Michael Machado
CEO at EYF | Experiencing the future with Digital Planning, Risk-Based Management, AI and Advanced Analytics.